quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Toda Ale Ferreira tem seu dia de Maddie Hayes

Uma das séries mais queridas por quem via televisão nos aos 80 era Moonlighting, "brilhantemente" traduzida por "A Gata e o Rato". Lançada em 1985 contava as aventuras de uma ex-supermodelo que ficou pobre e só tinha como fonte de renda uma agência de detetive, e o picareta que era teoricamente o chefão da agência e responsável por tudo.

Maddie Hayes era interpretada pela maaaaaaaravilhosa e estupefaciante Cybill Shepherd, já David Addison, o picareta era o igualmente picareta Bruce Willis, na época ainda com cabelo.

Durante 5 temporadas acompanhamos as confusões (hoje inocentes) os perigos, os personagens evoluindo e passando de desprezo a tolerância, admiração e até amor mútuo. Só que por muito tempo ninguém pegava ninguém. Sempre rolava um clima, ficavam no quase mas não acontecia.

Por pressão dos espectadores eles acabaram ficando juntos. Desse episódio em diante os mesmos fãs que exigiam que seus personagens fossem felizes perderam o interesse e abandonaram o seriado aos bandos.

O que aconteceu?

Simples: Um componente básico da dramaturgia é o conflito. Quando temos um casal onde um não quer, temos conflito. Quando temos um casamento em briga, temos conflito. Quando temos um casal alegre feliz e bem-resolvido, temos algo extremamente chato do ponto de vista dramático.

Tá eles ficaram juntos, e agora? Pois é, agora nada. As fãs que fantasiavam com David mas gostavam da Maddie a estariam "traindo emocionalmente" se continuassem. Os homens que adoravam a Maddie, com seu relacionamento estável perdiam parte importante da fantasia.

A grande graça é que nenhum fã tem consciência disso quando pede, exige que o casal de protagonistas de sua série abandone a tensão sexual e parta para as vias de fato.

Pode reparar: A menos que seja uma sitcom os protagonistas muito raramente terão um relacionamento estável entre si. Mesmo que casados, as caras-metades raramente aparecerão. Isso é estudado para não melindrar o espectador com um corta-tesão de ver seus personagens favoritos alegres felizes casados e entediantes, jogando-o, o espectador, para escanteio. Quando tem um relacionamento, é algo problemático.

Listemos alguns exemplos:

  • McGyver - Nunca teve namorada. Rolou uma ficada em um ou dois episódios
  • Star Trek - Todos solteiros
  • Arquivo X - 5 ou 6 anos até rolar um beijo e só
  • Bones - Tensão sexual até o osso (desculpe). Vão transar mas apenas pq ela quer o sêmem de booth pra ser mãe
  • House - Já quase se enrabichou com a ex (big mistake) e com a Cuddy, mas estava viajando. Sem as piadinhas e o estilo morróida, qual graça ele teria?
  • Scrubs - JD é "casado" com Turk, então o fato deste último ter virado "homem de família" não importa muito.
  • Dexter - Quando arrumou a namorada britânica ficou um porre. Ele mesmo reconheceu. Embora vá casar com o entojo da namorada grávida, o fato do Dexter ser Dexter invalida todo o conceito de "casamento feliz e estável".
  • Criminal Minds - o único com família visível, o Hotch tomou um pé na bunda. O resto ou estão enrolados ou são como o relacionamento da Garcia, que é nerd, super-legal vê-la com namorado mas o que os fãs queriam mesmo era que o Derek Morgan desse uns pegas na gordinha linuxeira (já que não podemos ser nós a dar). Não vai acontecer.
  • 30 Rock - Se Liz e Jack começarem a namorar firme como veremos Liz sendo estabanada e Jack sendo o machista chovinista incorrigível de sempre?
  • Lei e Ordem SVU - É CLARO que o Eliott já pensou em dar uns pegas na Olivia. Mas se os roteiristas fazem isso teríamos uma série policial chatíssima, sem os conflitos trabalho/família.
A maioria dos roteiristas sabe e avisa aos fãs, nas palavras do Filósofo Jagger:

"Você não pode ter tudo que quer mas se tentar pode conseguir o que precisa"

Fãs acham que querem a felicidade de seus personagens mas anseiam o conflito. A alegria de um casal logo se transforma em reclamações quanto ao tédio que a série se tornou. Que graça teria se Leonard começasse a namorar firme a Penny, em Big Bang Theory?

Uma das poucas séries onde temos casais casados com famílias constituídas é The Unit, mas como as mulheres formam um núcleo a parte com subhistórias próprias, fica mais fácil entendê-las como parte de um núcleo, e as histórias raramente são sobre seu dia-a-dia familiar. Quando é, há conflito externo.

Portanto, a melhor forma de fazer o público perder interesse é dar o que ele quer e fazer com que um protagonista em eterna busca encontre o que procura, ou que casais sempre no quase cheguem aos finalmentes.

Entendeu, Alê Ferreira? Por isso você perdeu seguidores ontem. Cada vez que você posta comentários no Twitter sobre seu namorado, cada vez que você -horror!- faz RT de comentários dele dizendo o quão legal é namorar você, se torna desinteressante ao espectador.

Como assim você não é um seriado? É sim! Um Reality. No momento em que você (ou qualquer outro tuiteiro) decide compartilhar partes de sua vida online, deixa de ser um indivíduo e vira uma espécie de mídia. E como mídia estamos sujeitos a muitas das regras que vem regendo a dramaturgia desde que o mundo é mundo.

Isso quer dizer que você não pode falar do seu namorado?

Hummm pensando bem, por um certo ângulo...

Eu sei, é injusto para caramba, não faz sentido gente que não te conhece, gente que você JAMAIS chegaria a menos de 5m da jaula, que dirá sair pra uma ficada pedir as contas e te abandonar por ousar ter um namorado.

Só que não sou eu quem faz as regras. Isto aqui é algo que faria alguém assistir a uma série?



Nas redes sociais você só é percebido realmente como indivíduo por quem te conhece pessoalmente. Por mais que tenhamos plena consciência de que são pessoas por trás dos nomes, o distanciamento nos transforma em espectadores. E espectadores estão sujeitos a cobrar as 36 Situações Dramáticas, compiladas por Georges Potis, sem as quais não há conflito, e sem conflito não há interesse.

Qual a saída? A mais cômoda é parar com os twits de lambeção, pedir pro cidadão parar de ficar esnobando que é seu namorado. Só que a cômoda não é a mais justa. Eu sugeriria que você começasse a investir no "personagem" do namorado, mas com um qualificativo mais abrangente do que "namorado". Do jeito que está é um empecilho, não um personagem interessante. Venda o peixe como um cara legal, não fique mencionando que é namorado o tempo todo. Nós sabemos, você sabe.

Se tudo der certo vocês viram DOIS personagens legais e muita gente vai querer que fiquem juntos, acharão legal quando descobrirem que já estão, e compensarão os inconformados que saírem.

Tente passar o namoro não como algo escrito em pedra, Imortal Posto que é Chama, mas como alo legal que está rolando. Depois do Felizes Para Sempre todo mundo fecha o livro. Já o namoro normal, ninguém sabe para onde vai mas é legal de acompanhar. A situação não-convencional, Internet, Twitter, isso faz com que o espectador não seja tão radical quanto a você arrumar um relacionamento estável, mas aquela pessoa TE segue, não a seu namorado, se ele não é tão interessante quanto você, vira um intruso.

Aí, ou acha alguém já considerado interessante (DM!DM!) ou mostra pros espectadores que o @zerrenner é SIM interessante, independente de ser seu namorado.

Se bem que por mim mandava pro paredão :):):):):):):)





22 comentários:

Anderson Araujo 26 de agosto de 2009 09:05  

Acho que aprendi nesse post mais sobre Narratividade e Roteirização do que a última aula que eu tive lá na PUCSP. Mas darei um desconto pois o semestre lá está apenas começando.

c2games 26 de agosto de 2009 11:30  

puts.. quase li o possível spoiler de House (sim, comecei a ver tem pouco tempo).

e escutar o que os fãs pedem quase sempre dá m*rda e mostra falta de personalidade

Marcelo 26 de agosto de 2009 12:25  

Excelente. Faltou falar do Casal 20 dos anos 80 mas eles foram o ponto fora da curva.

Fernando 26 de agosto de 2009 13:14  

E o "mela mela" já é chato pessoalmente, imagine no twitter?

Anônimo,  26 de agosto de 2009 15:54  

Falta do que fazer, dá nisso...

Nigro 26 de agosto de 2009 16:13  

Tudo muito bonito, tudo muito lindo. Mas... fã do que? 'Ah! Eu sou tuiteira, bonita e tenho um namorado, também tuiteito e zuuuuperlegalz' - é isso?

Ok... a guria deve ter algo de relevante, visto que gerou esse bafafá aqui. Eu é que sou uma topeira e não estou ligadas nas uber-tendências-zuper-hypes da Internet atual, cheias de 'celwebridades'.

E cada época tem ídolos, ícones e 'Os Menudos' que merece. (ou não)

Isabelle Pacheco 26 de agosto de 2009 16:15  

Muito bom! Sem querer ser saudosista e já sendo, isso me faz lembrar o tempo em que não se modificavam as tramas das novelas e nem o perfil de seus personagens para garantir alto IBOPE... Hoje em dia modificam até clássicos da literatura, alegando licença poética...

ragaspar 26 de agosto de 2009 16:19  

De fato, claro como a neve que assistir desfechos óbvios é brochante, mesmo sendo tudo o que deseja!

Aliás, o óbvio é brochante!


Love Web Consultant!

Massa!

Felipe Toffolo 26 de agosto de 2009 16:30  

As pessoas gostam de amor e guerra. De preferência misturado de várias formas diferentes. Excelente como sempre.

Raquel 26 de agosto de 2009 16:37  

Cardoso,
Jane Austen sabia das coisas. Quando as personagens casavam ela acabava rapidinho o livro. Nada de gente transbordando de felicidade conjugal que é muito chato!

Erick Tsarbopoulos Graziani 26 de agosto de 2009 16:55  

Ah, mas na hora lembrei do "Get Smart" - "Agente 86"...
Tinha umas horas q a gnt ficava pedindo pra ele catar a 99, e mesmo depois q eles ficaram juntos, não se perdeu o interesse na série...

Manu,  26 de agosto de 2009 19:16  

Opa, li um montão de spoiler.

Luis Pereira 27 de agosto de 2009 00:32  

Que aula de estratégia! Serve para qualquer um e a Ale Ferreira foi simplesmente um personagem utilizado pelo Cardoso para exemplificar e responder à questão que perturba todos no twitter. Por que meu número de seguidores não aumenta? Ou por que ele diminuiu? A resposta está no texto acima: Torne-se interessante e também não deixe de ser!
Parabéns e Abraços Cardoso
@CMPLuis

Fabio Sarmento 27 de agosto de 2009 01:38  

Aaaah o amor...até pro-blogger facilita um trackback, quem sabe um banner. Não é Caio Novaes?

tomboderider 27 de agosto de 2009 05:34  

. Monk é um viuvo q flerta a assistente.

Cossette,  27 de agosto de 2009 16:18  

é...ela pode seguir suas dicas ou simplesmente continuar escrevendo o q der na telha, afinal esse negócio de profissionalização do tuiteiro é meio o fim da picada!(c/ tooodo respeito)

ou a pessoa é interessante ou não é...

afinal, a maior crítica a "tuites" não são os "escripitis"?

Ulisses Adirt 30 de agosto de 2009 13:04  

Vou repensar a idéia de colocar os diálogos com as minhas amantes no blog: http://incautosdoontem.opsblog.org/2009/08/22/ulisses-o-bom-amante/

;-)

Lucas 30 de agosto de 2009 15:44  

@Isabelle Pacheco

De fato, escutar fã NÃO EXISTE. O autor é o DEUS da sua obra. Alterá-la pela vontade de quem a acompanha é IMBECIL, é coisa de autor de novela.

Lembro-me do caso do Tony Ramos malvadinho numa novela recente, que o público retardado não aguentou. Aí ele passou a fazer a mesma coisa de sempre, um cara legalzinho.

@tomboderider

Não, o Adrian Monk é um tanto assexual, ele não consegue mais pensar nessas coisas desde que perdeu a Trudy.

Caio Costa 31 de agosto de 2009 04:49  

Concordo com vc. O casal vinte da twittosfera baiana, @robertocamarajr e @danividal não ficam trocando esses twitts melosos, pq talvez saibam que isso não interessa a nenhum dos seguidroes dele. Se duvidar, quem não os conhece pessoalmente não sabem que eles são namorados.

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